sábado, 27 de setembro de 2014

AMYR KLINK FALA SOBRE A IMPORTANCIA DA ÁGUA!

 Diante da atual falta de água vivenciada pelo Estado de São Paulo, o que poderia ser feito para amenizar a crise?

No caso de São Paulo, o primeiro problema a ser resolvido é o desperdício na distribuição de água. Para mim, o que faria a gente sentir na pele o problema é o preço. A água é muito barata. Aumenta 100 vezes o preço para você ver o que vai acontecer. Claro que o consumo sofreria uma diminuição, as pessoas começariam a se preocupar mais com o desperdício.
Em uma escala maior, tem a questão da atividade industrial e agrícola. O consumo de água é bastante desproporcional nessas atividades, se comparado ao consumo direto. E esse é um tipo de consumo que pouca gente questiona. O volume de água usado para produzir um quilo de carne ou uma maçã é incrivelmente superior ao de uma residência. São números espetaculares, o que torna o consumo direto humano insignificante.

Você produz o sistema de controle do uso da água de seus barcos. Como funciona?

Tem dois tipos de água: uma para uso geral, que dá para tomar banho, lavar a louça, e outra para consumo humano, ou seja, para beber. O simples fato de você separar as duas coisas já faz com que economize. O manuseio da água é feito por mini bombas mecânicas que são acionadas com pedal; no barco, você não tem um sistema de alimentação por gravidade -- não dá para colocar uma caixa d'água. Como a embarcação se move, até com violência, nem sempre você tem as duas mãos disponíveis para acionar e fechar a torneira. Então a gente usa esse mecanismo do acionamento com o pé. É impressionante o que economiza de água.
Nós também "fabricamos" a água, o que tem um custo, já que você precisa ligar o gerador, que é movido a diesel. É o mesmo óleo diesel usado para o aquecimento em viagens à Antártida, derreter neve ou para acionar o motor do barco. O simples fato de saber que essa energia usada para "fazer água" é importante faz com que a gente a use de maneira eficiente. Além disso, temos um sistema a vácuo que usa 500 ml de água em vez dos 10 litros de uma descarga normal.

Durante sua trajetória como navegador você visitou muitos países, com diferentes realidades. Algum deles lhe chamou atenção sobre a forma com que trata o consumo da água?

Há um lugar em que a água é abundante, mas mesmo assim o consumo é bastante eficiente. São as Ilhas Faroé, um arquipélago no Atlântico Norte que pertence à Dinamarca. Apesar da relativa abundância -- chove muito ao longo do ano --, o consumo da água é bastante consciente porque o recurso lá é caro. Por ser uma ilha, tudo tem de ser importado. Falando em ilha, do lado oposto está Cabo Verde, que não tem água e precisa dessalinizar a água do mar, o que faz com que os moradores tenham uma preocupação grande com o recurso.

Você acredita que essas soluções poderiam ser adaptadas para o Brasil e São Paulo, de maneira mais específica?

É claro que os governantes nunca adotariam uma medida como essa por razões políticas. O que me impressiona é que essa ignorância no uso parte de cima para baixo. Eu assisti recentemente a uma entrevista da Dilma Pena, presidente da Sabesp. Essa mulher é uma irresponsável. Ela falou "não existe no meu cenário a possibilidade de racionamento". É como um motociclista falar que não existe no cenário do transporte em duas rodas a possibilidade de acidente, ou como eu falar que não existe no meu cenário, como construtor de barcos para clientes exigentes fora do Brasil, a possibilidade de naufrágio. Claro que existe.
Você imagina uma gestora que deve ter sido colocada lá por alguma razão política, que não bastasse a arrogância, ainda demonstra em público a mais pura incompetência ao afirmar essa e outras barbaridades. Temos outro problema também criminoso, como no caso da prefeita Luiza Erundina [que assumiu a administração em 1988], que licenciou um loteamento clandestino em área de mananciais.
Primeiro, a gente tem que encontrar uma maneira técnica de colocar gestores em funções importantes, como um órgão que cuide de saneamento. Se os gestores fossem competentes, eu teria orgulho em pagar mais pela água. Mas não é o caso hoje porque sei que esse acréscimo vai alimentar os partidos ou a ineficiência do governo.

O crescimento da cidade, em sua opinião, contribui para essa crise hídrica?

São Paulo tem um problema muito sério: a cidade está entrando em um estágio de concentração de pessoas crônico, não tem mais espaço físico. Está na hora de planejar a cidade para crescer qualitativamente. 
O Brasil, infelizmente, é um país atrasado em termos de urbanismo. A gente não tem uma cultura de planejamento, de crescimento ordenado. As cidades projetadas no Brasil são raríssimas. Temos casos icônicos que mostram o nosso despreparo para planejar a cidade, como Brasília, uma cidade totalmente incongruente.

O senhor acha que a falta de educação ambiental também contribui para que os cidadãos, mesmo sabendo da escassez de água, continuem a lavar calçadas com a mangueira aberta, entre outras atitudes?

Eu acho que o governo tem uma parcela de responsabilidade nisso, mas como indivíduos nós também temos. Modificar uma cultura é um baita desafio. Se você parar para analisar, por exemplo, nem é só o brasileiro, mas o sul-americano que não sabe a ordem de procedência, por exemplo, em um cruzamento, os motoristas tendem a furar filas. Se você vai a um bairro rico de São Paulo, como Jardins, Moema, a grande maioria dos automóveis queima a faixa ao parar no semáforo.
Eu não sei te responder qual seria a melhor solução, só sei que seria demorada. É uma questão cabeluda, que envolve o trabalho na base, na escola e vai além, é um processo de reeducação. É mais difícil do que simplesmente educar, mas absolutamente necessário. A cultura da eficiência vai demorar a ser construída. Por isso é que precisamos começar já.
                                             

          ( Texto de Mirthyani Bezerra   Do UOL, em São Paulo 26/09/201406h
          http://noticias.uol.com.br/meio-ambiente/ultimas-noticias/redacao/2014/09/26)
                 

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Antes de explodir, o planeta Terra era o computador mais poderoso já criado — projetado para calcular a resposta final a mais importante pergunta.

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